segunda-feira, 1 de julho de 2013

Luto e ficção

Perdi um familiar muito querido há dois meses. Desde então, fui tomado por uma melancolia enorme. Enquanto o Brasil pegava fogo com gritos e protestos, não me vi compelido a participar de nada. Absolutamente nada. Até porque, sinceramente, eram manifestações de insatisfação muito genéricas e nenhuma me seduziu. Enquanto as pessoas saíam às ruas por qualquer motivo, muitas simplesmente querendo expressar um sentimento explosivo que eu não tenho, no momento, fiquei observando de longe.

Enquanto isso, ainda de luto, comecei a rever um desenho que conheci na minha adolescência. Não sabia a razão disso, só comecei a pensar naquele desenho e a revê-lo, mesmo com tanta coisa pra fazer. Eu fui revendo episódio por episódio, sentindo emoções que não tinha experimentado nas primeiras vezes em que ví. O desenho era outro agora que sou outro. 

Eu não entendia a razão de tanto impacto por rever aquela história. Foi um desenho que eu assisti com meu familiar falecido, isso eu sempre soube, mas algo mais estava acontecendo enquanto eu o assistia. Foi somente após o último episódio que me dei conta do que estava acontecendo.

O desenho é sobre um rapaz jovem, que cresceu em um ambiente inóspito. Seu pai abandonou a família. Sua mãe se entregou completamente ao álcool. Na escola, os professores não dão crédito a ele. O garoto possui uma agressividade muito grande em relação a tudo, como resposta. Ele encontra algum afeto por parte de uma menina que acaba virando sua namorada, mas somente dela.

Num geral, ninguém dá nenhum crédito a ele. Ninguém acredita que ele seja capaz de nada de bom. Um dia, ele encontra um garotinho jogando bola na rua e o avisa pra tomar cuidado. O menino, teimoso, continua e acaba jogando a bola no meio da rua movimentada e indo atrás para buscá-la. O protagonista se joga para salvar o garoto e morre atropelado. Mas sua morte foi uma surpresa até pro mundo espiritual: ninguém, nem Deus e a própria morte esperavam que ele desse a vida para salvar alguém. Então oferecem a ele a chance de reviver, já que não existe lugar pra ele nem entre os mortos. A fala do protagonista é a mais impressionante. Ele diz que não quer reviver, pois ninguém sentiria sua falta. Todos estariam melhor sem ele.

Ou seja, sua auto-estima era, com razão, muito baixa. Mesmo assim, ele decide tentar reviver principalmente depois de ver como sua mãe reagiu e se entristeceu. Sim, ela bebia, mas isso nada tinha a ver com o imenso amor que sentia pelo filho. Ele se comove, revive e depois disso, se torna um funcionário do mundo espiritual. Sua missão é encontrar demônios e caçá-los. Ou seja, esse protagonista, tão hostilizado pelo ambiente em que nasceu, fruto de uma família desestruturada, encontra uma maneira socialmente aceitável e produtiva para liberar sua agressividade. E, por meio dessa agressividade canalizada, ele recebe suas maiores conquistas e seu maior reconhecimento. Através de suas aventuras, faz amigos fiéis que o admiram e se tornam companheiros.

Em vários momentos, no entanto, esse protagonista se mostra tão temerário que sua coragem parece se apoiar ainda naquele sentimento inicial de que a sua vida tem pouco valor. Ele no início entrega - sem pensar duas vezes - a única chance que tinha de reviver para salvar sua namorada. Com sorte, a entrega não passava do último teste para reviver e assim o enredo prossegue. Em outro momento, ele deliberadamente se deixa matar por um inimigo poderoso para que a sua morte evoque a força de seus companheiros e isso os faça derrotar o vilão. Mais uma vez, para que o enredo continue, ele é novamente trazido de volta.

Foi somente depois do desenho que eu entendi o que estava acontecendo. Esse protagonista era o meu familiar. As histórias eram - afora os elementos fantásticos - iguais. Eu procurei respostas e sentido para o ocorrido nesse desenho. Vivi o luto através da arte, da fruição, do correr da história. E, através dela, percebi algo que não percebera anteriormente: que ambos protagonista e familiar carregavam, dentro de si, um sentimento de baixa estima. Que estava ali, há tempos, uma semente que poderia resultar em uma tragédia. 

Infelizmente, não estamos no mundo da ficção. Aqui, diferente de lá, não se pode entregar a própria vida três vezes e continuar vivo. Noto que, em todas, as mortes foram ocasionadas pelo próprio protagonista e não por um elemento externo. Mas eu gostaria de viver no mundo da ficção. Gostaria de tê-lo de volta, de vê-lo novamente, de poder chamá-lo de idiota e de poder reclamar dele. Gostaria de poder rir novamente com ele, de embarcar em mais uma aventura com ele e de torcer por ele em um torneio. E eu pude fazer tudo isso ao rever o desenho. E fiz. E, por alguns instantes, realmente acreditei que ele tivesse voltado.


sábado, 12 de fevereiro de 2011

A mulher perfeita

Parecia um dia comum naquela delegacia. Denuncias sendo feitas, documentos sendo apresentados, relatórios sendo redigidos. Policiais passando aqui e ali. Vítimas também. Telefones tocando, pessoas conversando, dedos digitando, impressoras antigas fazendo todos os tipos de barulho, etc. Um dia comum.
Alguém entra na delegacia e consegue a atenção de todos. É um homem. Ele grita algo tão alto que todos os outros sons parecem apenas ruídos perto de sua voz. E todas as pessoas se calam para ouví-lo.
Ele disse:
- Eu matei uma mulher! Acabei de fazer isso! Eu a enforquei!
Obviamente, isso seria chamativo em qualquer lugar. Mas, obviamente, sendo o lugar em que tal grito foi entoado uma delegacia, o silêncio e a atenção de todos sobre esse individuo foram redobrados, se é que isso era possível.
Ele continuou:
- Eu sou o culpado! Não tentarei fugir! Posso até dizer onde está o corpo! Podem me prender quando quiserem!!
Geralmente, a ação da polícia é ineficaz em praticamente todas as denúncias e queixas feitas ali. Mas, diante de uma denúncia feita por um indivíduo contra si mesmo, se entregando, os policiais agiram bem rápido. Correram em direção ao homem e o agarraram com força, como se houvesse nisso algo heróico, e como se ele tivesse manifestado qualquer intenção de fugir.
Minutos depois, o homem foi algemado e colocado de frente ao delegado para se explicar.
- Eu matei mesmo uma mulher. Ela se chama Juliete. Aconteceu em uma casa em construção. Não é muito longe daqui.
O delegado, surpreso ainda com toda a situação, decidindo se acredita ou não naquele homem, perguntou:
- Juliete? Isso lá é nome de gente? Você tá falando a verdade!? Se isso for algum tipo de brincadeira...
Seu tom era de ameaça. Todos estavam tensos. Dois policiais estavam na sala, ouvindo a conversa também.
- Não é mentira. Eu matei essa mulher. Eu fui obrigado a fazer isso.
O delegado agora estava indignado:
- Obrigado!? Ela por acaso pediu pra você fazer isso!? Que absurdo é esse?
O homem olhou diretamente para o delegado e respondeu:
- Eu tive que fazer isso. Eu vou me casar amanhã.
Até mesmo os policiais em volta não puderam evitar. Os queixos caíram e os olhos se arregalaram.
O delegado mandou que os dois saíssem. Ele respirou fundo e se lembrou do que tinha de fazer.
- Antes de mais nada, rapaz, me diga o seu nome completo.
- Gabriel Costa Neto. E essa é a minha carteira de identidade.
O delegado verificou. "Gabriel Costa Neto" era um homem de 26 anos. Sem nenhuma passagem anterior pela polícia. Residência fixa...aparentemente um cidadão comum. Não parecia o tipo que cometeria um crime tão bárbaro. Ele também colocou a cabeça no lugar: com tantos nomes estranhos surgindo atualmente, Juliete certamente não fora o mais estranho que ele já ouvira naquela delegacia.
O delegado continuou:
- Você não preferiria ligar para um advogado? Você não é obrigado a fornecer provas contra si mesmo, principalmente sem a presença de...
Ele foi interrompido pelo rapaz.
- Eu quero confessar tudo a você, Sr. delegado. O que vai acontecer comigo daqui em diante é critério seu.
O delegado ainda não sabia qual era a razão daquilo tudo, mas decidiu tomar garantias. Ele convocou os dois policiais que havia dispensado e, assim que entraram, pediu a Gabriel que ele fornecesse o endereço do local onde o corpo estava. Gabriel fez isso sem hesitar.
Os dois homens saíram da sala às pressas, enquanto o delegado continuou a conversa.
- Essa tal Juliete, qual é o nome completo dela?
- Apenas Juliete. Isso já basta, delegado. Vocês irão encontrar o corpo.
O delegado respirou fundo. O endereço onde o crime supostamente ocorreu não era tão próximo assim. Isso significava que o rapaz a sua frente precisou de dirigir por pelo menos uma hora para chegar àquela delegacia e se entregar. Ele precisava tomar cuidado, a situação toda era muito atípica.
- Você disse, Sr. Gabriel Neto, que iria se casar amanhã e que, portanto, foi obrigado a cometer o homicídio. Qual era a natureza do seu relacionamento com essa...Juliete? É com ela que você vai se casar ou...ela era uma...parceira extra-conjugal?
- Eu não vou me casar com a Juliete. Eu adoraria, mas eu não posso.
Essa resposta preocupou o delegado. O rapaz continuou.
- Eu vou me casar com uma garota que conheci na faculdade. Ela não tem nada a ver com a Juliete.
- Então era uma amante? Por acaso essa Juliete já era casada, Gabriel? Ou você não queria que ela se envolvesse com mais ninguém mesmo depois que você se casasse? É isso o que houve?
O rapaz parecia pálido. E trêmulo. Ele disse, em voz baixa:
- Eu não acredito que eu realmente consegui.
O delegado se indignou:
- Escute aqui...se eu ouvir você dizendo algo assim de novo, coloco você na cadeia e não escuto uma palavra sua até meus homens me avisarem o estado do corpo da vítima.
Gabriel se desculpou, mas ele agora parecia ainda emanar um ar de satisfação. Mas não um ar cruel, o que deixava tudo intrigante. De qualquer forma, pensou o delegado, ele já iria para a prisão mesmo que tudo isso não passasse de um devaneio vindo de um maluco. O delegado continuou a conversa:
- Então você e ela eram amantes?
- Não.
- Você e ela já se envolveram antes?
- Eu pensei que sim, Sr. delegado. Achei ter me envolvido com ela várias vezes. Mas eu estava enganado.
- Então você é um doente, Sr. Gabriel. Me desculpe por quebrar alguns procedimentos, regras e protocolos de conduta, mas eu estou farto de homens como você. Homens que acham que possuem uma mulher. Que acham que elas são seus objetos, suas possessões. E não permitem que elas os abandonem, que sigam com suas vidas...vocês precisam delas mesmo que seja à força, não é, seu covarde!? Se quiser continuar conversando comigo, vai ter que ouvir o que penso de você!!!
- Você pode dizer o que quiser, Sr. delegado. A verdade é que ela foi, para mim, a pessoa odiosa que você descreveu. Ela não me deixava seguir em frente, não me deixava esquecê-la...e certamente não me deixava abandoná-la.
O delegado estava furioso e confuso. Nada daquilo fazia sentido.
- Mas você não acabou de dizer que você e ela nunca se envolveram? Que história é essa agora? Ela era a possessiva? Era ela quem não deixava você seguir em frente e por isso você a matou!?
- Isso mesmo. Eu precisava fazer isso. Eu vou me casar amanhã.
- Você vai é pra cadeia, Gabriel.
O rapaz parecia não se importar com isso. O delegado recolocou o pensamento no lugar, e continuou:
- Então deixe-me ver se eu entendi...você estava apaixonado por essa mulher, essa Juliete, não estava?
- Sim. Muito. Passei a vida inteira gostando dela, Sr. delegado.
- E você precisou matá-la por que, exatamente? Se você gostava tanto dela e ela não te deixava ir, qual era o problema? Por acaso ela é alguma pessoa com quem você não podia se envolver? Uma prima? Irmã? Filha...?
O delegado estava incomodado com o possível curso dessa conversa.
- Não, Sr. delegado, ela não era da minha família. E eu passei a minha vida inteira apaixonado por ela, mas isso acabou quando eu conheci a minha futura esposa. Ou pelo menos eu fiz acabar. Hoje.
- Então...você acha que matando essa mulher você vai conseguir esquecê-la e se casar amanhã? Você perdeu o juízo, rapaz!?
- Ela não me deixaria casar, delegado. Não me deixaria viver uma vida normal, ter filhos com a minha futura esposa, cuidar dela, amá-la...nada disso. Ela já fez isso antes.
- Como? Por favor, explique.
- Sempre que eu me envolvia com alguma mulher, lá estava ela. Ela aparecia, me atraída, e atrapalhava tudo. Era ela quem eu buscava em todos os meus antigos relacionamentos. Mas hoje isso acaba.
- E vocês nunca se envolveram fisicamente, Sr. Gabriel? Essa tá difícil de engolir, com o perdão da palavra.
- Nunca. Antes isso me incomodava, mas não mais. Eu quero viver uma relação normal agora, com a minha futura mulher.
- Eu não acho que é assim que as coisas irão acontecer, Sr. Gabriel. Se você quer tanto se casar amanhã, por que cometeu um crime tão bárbaro e ainda se entregou desse jeito?
- Por que o Sr. é a lei, delegado. Eu precisava ouvir o que você tem a dizer. Eu preciso saber se o senhor concorda comigo ou não. Se o Sr. acha perdoável o que eu fiz.
O delegado agora tinha certeza de que estava conversando com um maluco. Ele se cansou daquilo e mandou levarem Gabriel para uma cela. Ele ficaria ali até a perícia voltar. E, após duas horas de espera, seus homens voltaram.
- Não tem corpo nenhum naquele endereço, Sr.
O delegado, furioso, se levantou e foi pessoalmente tirar satisfações com Gabriel. Por que se entregar depois de um assassinato e dar o endereço falso? Nada daquilo fazia sentido. Ele se dirigiu rapidamente à cela do rapaz e, apertando as grades com força, disse:
- Os homens não encontraram nada no endereço que você indicou, rapaz. Eu vou acabar com a sua vida se isso foi piada sua.
O rapaz parecia assustado.
- Então...não encontraram nada? Certeza absoluta!?
- Sim. Me explique agora o que está acontecendo.
- Então, Sr. delegado, acho que não vou me casar amanhã...acho que ela sobreviveu.
- Como é!?
- E acho também que você não me ouviu com a devida atenção, delegado. Você ainda não entendeu? É tão óbvio. Uma mulher que está em todos os nossos relacionamentos, mas com quem nunca conseguimos nos envolver. Uma mulher que não nos deixa seguir em frente e que certamente não pode morrer. Não facilmente. Eu já tentei fazer isso antes, não se lembra?
O delegado parecia confuso. Ele não entendia nada daquilo.
- Eu já tentei matá-la antes. O Sr. não se lembra?
- Eu...acho que não...
O delegado estava inseguro quanto a isso.
- Quem é essa mulher de quem eu falei, delegado?
O delegado resolveu deixar o teatro de lado e respondeu:
- Você não devia sair nunca mais dessa cela, Gabriel. Nós não devíamos.
Gabriel se calou.
- Você falhou novamente. E agora nós vamos nos casar. Tudo vai ser um inferno. Ela vai voltar e estragar tudo.
- Eu sei...
- Quantas vezes eu já repeti isso, Gabriel? Você precisa matá-la. Não existe prisão no mundo que o condenaria por isso! Mas não há perdão por você ter falhado dessa vez. Isso vai magoar muitas pessoas lá fora.
Gabriel agora apenas concordava melancolicamente com a cabeça.
O delegado continuou:
- Gabriel, quantas vezes eu preciso dizer? A Juliete não existe. Nunca existiu.
Gabriel continuou calado. O delegado, em um tom severo, prosseguiu:
- Ela é a mulher perfeita! Aquela que sabe sempre o que você está pensando, que gosta das mesmas coisas que você, que conhece até aquilo que você não sabe, que tem a mesma visão de mundo que você! Aquela que é a união de tudo o que você considera atraente fisicamente! A mesma que você procurou em todas as mulheres reais com quem já conviveu!
- Eu sei, delegado. Eu sempre acho que a encontrei em carne e osso. Sempre encontro o rosto dela por detrás de todos os rostos que conheço. Até descobrir que ela não estava ali, de fato. Até me decepcionar com os defeitos e as incompatibilidades de uma parceira real. Até perceber que não é com Juliete que estou, mas sim com uma farsante. E eu sei, delegado, que só a Juliete vai me fazer feliz. Eu preciso encontrá-la.
- Viu? Ela ainda não morreu. E é por isso que você devia ficar aí até apodrecer. Você vai continuar voltando aqui e falhando em matar esse fantasma. E vai continuar estragando todo e qualquer envolvimento amoroso que tiver por causa disso. E vai desperdiçar a vida inteira correndo atrás de um vulto. Agora vá, você está liberado.
Gabriel saiu, melancólico, andando pelo longo corredor da delegacia.
A música tocava alto, e ele estava de smoking.
Todos os convidados o olhavam.
Ele caminhou até o altar e aguardou.
Meia hora depois, olhou para sua noiva e, com uma simples palavra, concluiu a cerimônia:
"Sim".
Todos festejaram.
Mas Juliete o observada, de algum lugar. Ela sabia que nada daquilo iria durar.
E Gabriel também sabia que não era ela quem o estava beijando enquanto todos soltavam gritos de alegria.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Amém, maldito.

Ando com um sentimento inédito ultimamente.
Inédito no que se refere a sentir, por que já esse sentimento aparecendo em algumas outras poucas pessoas e sendo retratado aqui e ali.

É quando você se sente cansado e frustrado com a sua própria cultura. Cultura no sentido amplo do termo: estou cansado da formação e da estrutura da cultura ocidental.

Ela é confusa, cínica, hipócrita, contraditória. Vivemos no mundo do prazer imediato, do estímulo a euforia coletiva, do fomento ao consumo e, simultâneamente, no mundo da culpa, da humildade e da temperança.

Em outros contextos históricos, o ocidente passou fome e quase ficou para trás na corrida das civilizações. Agora, nunca tivemos tanto alimento disponível e tanta abundância. E, nesse mesmo agora, vivemos no mundo do regime, do transtorno alimentar, da bulimia. A televisão alterna entre anúncios de lanchonetes, super mercados, marcas de cerveja e restaurantes para anúncios protagonizados apenas por pessoas magras, muitas delas vendendo aparelhos de exercício físico. Mas esse é só um exemplo. Somos convocados a consumir produtos altamente calóricos mas também a vê-los como O INIMIGO. Precisamos e temos o desejo de comer, mas também somos pressionados a não fazê-lo, com medo da balança e da rejeição. Nasce aí uma das várias contradições angustiantes: como e mato meu desejo ou me controlo em nome do ideal de magreza, sabendo que o desejo voltará várias vezes ao dia pelo resto da minha vida? Antigamente, agulhas, barras de ferro e cordas eram bons instrumentos de tortura. Hoje em dia, basta comer uma barra de chocolate. Nosso sistema econômico, conclui-se, é movido pela angústia e pela falta. Ele não seria possível em uma sociedade de pessoas satisfeitas.

E essa não é a minha questão principal. O fato da nossa cultura ter transformado o prazer de comer em tortura é só um simples incômodo. O que me incomoda mesmo, no geral, são contradições ainda mais profundas como, por exemplo, o "maniqueísmo" cristão. Por causa da nossa herança cristã, não conseguimos evitar de separar o mundo entre o bem e o mal. O bem, para destruir o mal, pode matar, atirar, ser violento e até roubar. É o que vemos nos filmes, nos livros, nos contos de fada, na TV e na nossa vida. Nos relacionamos uns com os outros de acordo com esses termos. Canonizamos e endemonizamos pessoas próximas a nós o tempo todo. Somos intolerantes com colegas, amigos, vizinhos, familiares e desconhecidos. Vivemos, sem admitir, em uma cultura violenta. Uma cultura de combate impiedoso e eterno ao mal. E os maus as vezes são pessoas que até ontem eram boas aos nossos olhos. Basta um erro ou as vezes um rumor, um boato e uma desavença para lidarmos com outros seres humanos como lidaríamos com demônios.

Tudo isso em uma cultura que se vê como pacífica, apoiada no exemplo de amor e de paz de Jesus Cristo. Contraditoriamente, a mesma cultura que celebra seu momento máximo na sangrenta cena de crucificação desse mesmo homem e que come sua carne e bebe seu sangue (simbolicamente) em rituais sagrados.

Eu vejo uma série de discursos endemonizantes conquistando cada vez mais adeptos com o passar dos dias. E não são discursos novos. São repetições de discursos antigos. A santa inquisição não é mais convocada pela igreja católica contra protestantes e quaisquer outro tipo de herege. Ela é convocada por partidos políticos e por novas vertentes do cristianismo, e seus alvos são outros comportamentos, outras religiões e outros grupos. Homossexuais, índios, sem-terra, nordestinos, etc. E os adeptos substituem ativamente discursos antigos pelos mais atuais.

Os alvos, por sua vez, vêem em seus algozes a face do demônio. Ambos, no fim das contas, enxergam o lado oposto como demoníaco, desprezível e indigno de qualquer salvação.

Eis que me deparo com meu problema. Senti-me endemonizado algumas vezes na minha vida, mas nunca havia vivido uma polarização tão grande e tão cheia de raiva e baixarias como a dessas últimas eleições. E, de repente, percebi onde eu estava. Eu estava de um dos lados, fazendo exatamente o que acusava meus opositores de fazer. Vendo-os como demônios, como imbecis e como indignos.

E percebi o quanto é difícil sequer colocar isso em perspectiva. No fundo, não deixei de vê-los com maus olhos. E me sinto frustrado por isso. E frustrado em perceber que a nossa cultura, ao contrário da imagem que ela hipócrita e cinicamente construiu para si, tem por base máxima a intolerância ao próximo.

Eu gostaria de não ser assim. Eu apenas imagino como seria viver em uma sociedade que ensina, de fato, a respirar e a se acalmar antes de responder a uma ofensa; a ler e examinar com atenção os vários pontos de vista antes de fazer um julgamento; a lidar amigavelmente com as diferenças e a entendê-las como contribuições; a conviver, ao invés de converter.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O oráculo

Semana passada foi cheia de experiências novas. Umas muito boas.
Outras, estranhas.

Na semana passada, fizeram uma festa surpresa pra mim que realmente me alegrou muito. Eu até levei um bolo de aniversário bem grande pra casa e fiz a alegria da minha mãe, que continua a comê-lo na semana atual.

Mas a experiência mais estranha que eu passei foi uma ida ao psicólogo da minha namorada. Ele parece adotar a linha da "psicologia sistêmica", que se resume em considerar a rede de relações de um indivíduo como objeto de compreensão e estudo. Mas, falando assim, parece legal, né? A psicologia sistêmica também considera que os problemas e sintomas do homem advém de causas físicas, psicologias e ESPIRITUAIS. Desse modo, ela também considera questões relativas à espiritualidade e tem por expoente Carl Gustav Jung. Eu nem vou dizer o que penso de Jung, para que ninguém se perca. O mais importante vem agora e resume toda essa pequena divagação sobre psicologia sistêmica.

Ao entramos na sala do psicólogo, ele nos apresentou um jogo de tabuleiro. O "jogo do amor". A propósta era que eu e a Maiara jogassemos o jogo e falassemos sobre nossas questões como casal. Se o jogo fosse usado como ferramenta para nos fazer falar, ótimo.
A questão é que esse psicólogo, assim que começou a falar do jogo, disse que a idéia dele se originou do ORÁCULO DE DELFOS. O sujeito parecia mesmo achar que o oráculo de Delfos era um santuário espiritual onde as pessoas se questionavam sobre a sua existência. Ignorando o total erro histórico dessa análise, começamos a jogar e foi aí que eu percebi o inacreditável: ele realmente acreditava que o jogo também era um oráculo. A idéia não era nos fazer falar e nos comunicarmos! Era contactar o além, através do jogo do amor, e fazer O ALÉM nos dizer se a nossa relação tem futuro. Para tanto, precisávamos energizar os dados com energia positiva ao jogá-los e fazer perguntas ao além com o coração aberto e comunicativo.

Essa foi a experiência mais curiosa que tive nesses últimos meses. Será preconceito meu ver com PÉSSIMOS olhos um profissional - cujo dever seria cuidar da saúde mental de seus paciêntes - que joga um jogo de tabuleiro acreditando piamente estar diante de um oráculo sobrenatural? E que, ao invés de aconselhar e entender a relação de sua cliente com o parceiro, procura receber respostas vindas do além?

Bom, todos temos um preconceito. Esse é definitivamente o meu. Minha sorte foi o oráculo não notar a minha total descrença do começo ao fim da sessão. Senão, quem sabe, Zeus ou Poseidon poderiam me amaldiçoar. Se bem que isso seria bem legal.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

[ Pausa ] Mundo Espiritual

Eu estou em uma fase estranhamente espiritualizada. Talvez sejam os pensamentos sobre vida e morte, talvez outra coisa.

O fato é que tenho pensado muito sobre o meu papel nessa vida. E eu devo reconhecer que, como dizem os espíritas, essa minha encarnação atual tem sido muito boa.

Minha mãe me disse que, quando eu era pequeno, tinha mania de ficar sempre atrás de pitacos de cigarro e copos de cerveja, que era fascinado com isso. Ela acha que, se vidas passadas existirem, fui um boemio na vida anterior.

Se for o caso, talvez um dos objetivos da minha encarnação atual seja me livrar dos vícios. Em relação a vícios como fumar, beber e me drogar devo dizer que já completei o objetivo com total sucesso. Não fumo, não bebo e nem uso droga ilícita nenhuma.

Contudo, desenvolvi outros vícios e acho que preciso, atualmente, de mais disciplina para várias coisas. Dentre esses vícios, acho que tenho comido demais sem necessidade. Portanto, farei um compromisso nesse post de tentar me organizar melhor, de disciplinar mais e de me exercitar mais também. Afinal, faria bem para minha saúde, né?

Acho que vou retomar exercícios físicos. Hoje tive a inspiração de começar a correr. Vou tentar fazer isso.
Tomara que eu consiga. O fato de ter escrito me faz sentir um pouco mais motivado a continuar, justamente pra escrever depois que consegui e que estou orgulhoso de mim.

Só lamentarei se, no final, essa história de vidas passadas e encarnação com um objetivo de crescimento espiritual for tudo uma grande balela. Por que, aí, eu terei perdido tempo correndo e me exercitando quando poderia estar comendo e tendo outros prazeres. Já pensou que grande desperdício de tempo?

domingo, 15 de agosto de 2010

[ Pausa ] A angústia

(Eu pretendo tentar escrever todos os domingos, pelo menos, se eu conseguir.)

Durante essa semana, como na maioria das semanas da minha vida, experimentei extremos emocionais. Senti esperança, desesperança, satisfação, insatisfação, animação e preguiça. E também ocilei entre calma e raiva, amor e indiferença.

Santo Agostinho define o conceito de "angústia" em suas Confissões. Segundo o autor, a angústia é causada pela distenção da alma pelo tempo. A alma que não se reencontra, não sabe de sí mesma e nunca está em paz. Ela não sabe o que é, apenas sabe que não é mais o que já foi, e também não sabe o que será.

A alma se destende pelo tempo e seria essa a angústia primordial de todos nós. Eu, por outro lado, fico me perguntando se não estaria fadada a uma angústia ainda maior uma alma presa a uma alegria sem fim, a uma satisfação infinita, a uma eterna euforia. Agostinho compara a angústia do tempo com uma hipotética felicidade atemporal que ele nunca viu, apenas imaginou.

Em outras palavras: se você acredita que essa vida é ruim, você deve estar comparando-a com outra melhor. Mas que outra? Qual outra vida existe, senão essa mesma? Essa que se distende pelo tempo, repleta de contradições? Que outro mundo há e que outra vida é essa que todos imaginam e ninguém nunca viu, mas que todos tanto aguardam?

Eu, se fosse a vida, não perderia meu tempo com quem se recusa a me aceitar como sou e me trocaria sem pensar duas vezes por algo que somente vive na imaginação.

domingo, 8 de agosto de 2010

[ Pausa ] O chá derramado

O copo de chá se derramou sobre o chão do meu quarto e sobre a minha cama.

Aceitar a finitude e a passagem do tempo não é fácil pra mim. Desde pequeno tenho muito medo de morrer. Aliás, o que me aterroriza é o momento anterior à morte. Aquela hora em que pensarei: "é agora. Daqui a pouco estarei morto". Eu frequentemente imagino essa cena. E me pergunto: onde estarei quando o momento chegar?; estarei jovem, na meia idade ou velho?; estarei calmo e tranquilo ou assustado? E também me pergunto se verei esse momento chegar. Quem sabe seja repentino e eu nem perceba o que me atingiu.

Mas tive uma epifania sobre isso a pouco tempo, e ela gerou o impulso de retomar esse blog. Estava voltando para o meu quarto com um copo de chá gelado na mão quando, de repente, ao colocá-lo sobre o criado, ele caiu, derramando-se na cama e no chão. Meu dia estava ótimo até aquele ponto porem, logo em suas horas finais, quando eu pensava em me deitar e tomar algo refrescante, o acaso me atingiu. O momento me fez refletir muito e me fez perceber que o ocorrido era uma bela metáfora para a vida. Na vida, o chá se derrama. No exato momento em que ele molha o chão e a cama, queremos voltar no tempo e desfazer o acidente. Mas isso não é possível. E, para piorar, ficamos sem o chá e ainda precisamos limpar rapidamente a bagunça, afim de evitar maiores danos. Se não for a maior frustração do mundo, poderia entrar na lista das 10 primeiras. Pelo menos das 100 primeiras.

E por que isso aconteceu? Destino? Acaso? karma?
Bom, ninguém sabe. Mas assim é a vida. Algo que ninguém entende e que nos lembra constantemente que não temos o controle do que nos acontece. Em algum momento, o chá vai derramar. E o que separa um adulto de uma criança não é a idade e sim esse momento. Quando se entende que o curso de uma ação tão simples quanto se deitar para tomar chá pode ser radicalmente redirecionada pelo acaso, entende-se também que não se pode voltar no tempo para apagar o que nos desagrada. Entende-se que acidentes inevitáveis e sem sentido acontecem. Entende-se que, como o chá, nossa vida também vai se acabar, de uma forma ou de outra. E aquele que olha para o chá derramado sem chorar, aceitando que não pode tomar outro rumo senão limpar a bagunça, entendeu que precisamos aceitar nosso caminho pelo tempo. E aceitou que nossa jornada tem um fim, mesmo que seja doloroso.

Assim é a vida. Num dia, bebemos o chá. No outro, o chá se derrama.
Devíamos chorar?
Ou devíamos rir?

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Série Crônicas de uma cidade # 3

Paulo Quadros é um artista. Seu talento artístico sempre foi, desde novo, a pintura. Ele não sabia atuar, cantar, dançar ou tocar nenhum instrumento musical. Ele só sabia pintar e isso sabia fazer muito bem. Quando mais jovem, na altura de seus 8 anos, Paulo fez seu primeiro quadro: o de uma garota usando um belo vestido azul e com cabelos loiros e lisos. Essa, era Claudia. Aos 10, ele pintou Carolina, que tinha um sorriso realmente encantador e estava vestida como as garotas de sua idade, com uma saia e um arco colocando o cabelo - castanho e todo cacheado - para trás. Aos 15, pintou Bárbara. Aos 18, Ana Clara. Aos 21, Rafaella. A última obra fora Mariana, agora aos 31 anos. E ela é o quadro mais bonito, pelo menos na opinião do próprio autor, dentre todos os que ele já pintou.

Paulo Quadros acordou às 6:05 am do dia 18/09/2008, em seu apartamento e, ao olhar para a mesa em que seus materiais de pintura ficavam, constatou algo perturbador. Algo que causará a sua morte ainda hoje. Mas Paulo ainda não sabe disso. Ele está muito mais preocupado em tomar seu café da manhã, tomar um bom banho, escovar os dentes, se vestir e ir trabalhar. Ele ainda não se deu conta, a essa hora da manhã, do quanto se levantar não faria sentido algum, dado o que descobriu ao olhar sua mesa de materiais. Ele apenas sabe que hoje é um dia decisivo, mas ainda não precisamos falar o porque.

Paulo não é pago para pintar. Pintura é o que ele fez por prazer, por gostar, por um inclinamento natural. O verdadeiro trabalho de Paulo não aproveita em nada seu talento. Aliás, é justamente o oposto da atividade artística: um trabalho enfadonho que não demanda criatividade alguma para ser realizado. Aguardamos enquanto ele melancolicamente veste sua camisa social, acerta a gravata, veste a jaqueta do terno e pega as chaves para sair. Ele levará exatamente 32 minutos para fazer isso, simplesmente porque não sente vontade de fazê-lo. Então sairá de casa às 7:01 a.m. E o que o Paulo faz? Já não importa saber que é um trabalho desinteressante e melhor definido simplesmente como chato? Paulo pintaria seu ambiente de trabalho apenas em tons de cinza, se pudesse.

Vejam Paulo saindo de sua casa. Quando alguém o olha assim, com tanta atenção como nós, seja na rua, no trabalho ou pelo vidro de seu carro, jamais consegue imaginar o real talento dele. Por fora, ele aparenta ser um homem como qualquer outro, talvez até mais melancólico e sem graça que a grande maioria. Mas o que ninguém sabe é que o nosso protagonista possui um talento anormal, realmente espantoso.

Paulo não simplesmente pinta qualquer coisa. O tema de suas pinturas sempre foram, desde a primeira até a última obra, mulheres. Mas ele não apenas pinta essas mulheres. Ele cria seres humanos totalmente novos com seu talento. Essas mulheres não são apenas imagens estáticas feitas de tinta: elas possuem vida própria. Paulo é o único que conhece todas a fundo. Elas, como qualquer pessoa, são dotadas de uma personalidade única. Cada uma gosta de um certo tipo de música, de um número variado de filmes, de uns certos tipos de programas, de um certo estilo de roupas...Algumas gostam de teatro, outras gostam de poesia, outras sabem tocar algum instrumento e outras ainda também pintam, como Paulo. A única coisa em que todas elas se parecem é no fato de serem, aos olhos de seu criador, mulheres perfeitas.

Como já foi dito, hoje é um dia decisivo para o nosso protagonista. Há algum tempo ele começou a suspeitar de algo realmente assustador sobre si mesmo. Algo que comprometeria totalmente aquilo que dava sentido ao grande ofício de sua vida e à vida mesma: a arte. Suas suspeitas seriam confirmadas ou refutadas hoje e o resultado disso, como vocês já suspeitam, será de grandes conseqüências. Caso de vida ou morte, como diria algum não-tão-engraçadinho.

Agora são 7:45 a.m e Paulo está parado em uma fileira de carros, motos e ônibus, cheios de estudantes, de estagiários, de turistas e de pessoas atrasadas para o trabalho como ele. Como você já pôde notar, Paulo encara o engarrafamento com uma expressão triste e desanimada. Em um ambiente assim, ele não pode escapar de suas preocupações, que borram completamente o cenário estático e feito com tons de branco e preto para o qual Paulo encarava com olhos vazios.

Serão mesmo verdadeiras suas suspeitas? A dúvida revira o estômago de Paulo e inunda seus olhos. Ele poderia perder a única coisa em que realmente se considerava bom e que realmente fazia dele um homem único, marcante e genial. Seria sua alma, segundo o próprio Paulo, que estaria em jogo. E o desespero toma o controle do nosso protagonista a ponto de fazê-lo chorar, em plena luz do dia, em meio a um enfarrafamento no centro de Belo Horizonte, exatamente às 7: 51 a.m do dia 18/09.

Um rapaz, parado com seu veículo exatamente ao lado do de Paulo, assiste a cena intrigado e também preocupado. Ele abaixa o vidro da janela do passageiro e, sem pensar muito, diz:

"Ei...olha, eu não sei o que te aconteceu nem o que ta se passando. Mas me ensinaram, tem pouco tempo, que as coisas sempre melhoram se você conseguir esperar, viu? Força aí, cara! Isso vai melhorar!"

Paulo olha surpreso para o rapaz, sentindo-se estranhamente grato pelas gentis palavras do jovem, que não passa de um completo desconhecido. Outra coisa chama a atenção de Paulo em seguida: o carro do rapaz estava curiosamente amassado em sua parte dianteira, como se tivessem atropelado alguma coisa com aquele carro a pouco tempo. A gentileza desse desconhecido e o estranho formato da lataria amassada ajudaram nosso protagonista a vagar mentalmente por outros caminhos e, assim, distraídamente, chegar ao trabalho, cruzando os portões do estacionamento às 8:23 a.m.

Por quê hoje é um dia decisivo para Paulo e qual é a sua grave suspeita?
Enquanto Paulo sai de seu carro, pega o elevador e vai para a sua sala, em exatos 7 minutos, iremos responder a essas perguntas, finalmente.

A melhor resposta seria começar pela história de seu último quadro, Mariana. Paulo criou Mariana em um dia chuvoso. Quando a primeira imagem dela surgiu em sua mente, ela não era nada além de uma mulher muito atraente. Mas, aos poucos, Paulo foi se tornando cada vez mais íntimo de sua imagem, percebendo e empregando qualidades inerentes àquela beleza singular. Seus olhos, cheios de vida e cor, diziam a Paulo que ela também gostava de admirar os dias chuvosos. Sua pele, tão bem cuidada e perfumada, dizia a Paulo que ela era uma mulher sensível e carinhosa. Os cabelos, tão vistosos, diziam que ela inteligente, decidida e, principalmente, sofisticada. Seus lábios, tão bem desenhados, diziam que ela sabia se expressar muito bem e que sua voz era suave, limpa e agradável. Seus ouvidos, enfeitados sempre por um refinado par de brincos, diziam que ela não se divertia tanto em locais apunhados de gente, mas sim em locais calmos, com música leve. Suas mãos, delicadas e lisas, diziam a Paulo que ela era uma exímia tocadora de piano e ótima escritora. Mas o conhecimento dele ia muito além. Paulo sabia mais sobre Mariana. Soube que ela se perdia em sua imaginação ouvindo às melodias de Dario Marianelli; que ela também adorava dormir ao som de Cazuza e de Chico Buarque; que, ao ver um casal de idosos na praça, seu coração se enchia de esperanças; que ela achava graça de tudo e facilmente ria até enxarcar os olhos; que ela preferia cães a gatos; que ela sentia como se todas as mazelas do mundo estivessem sendo levadas em um dia chuvoso. Mariana era perfeita aos olhos de Paulo e, sem dúvida, a única capaz de fazê-lo feliz.

No presente, Paulo chega a sua sala, exatamente às 8: 36 a.m, e contempla - com o coração acelerado - a uma pequena pilha de cartas ainda embrulhadas pelo envelope em sua mesa.

Uma verdade precisa ser dita: Mariana, assim como as outras, não são apenas pinturas nos quadros de Paulo. Cada uma delas existe e fez parte da vida de Paulo.

Paulo, em sua sala, caminha em direção a sua mesa olhando, nervoso, a pilha de cartas. A última e mais recente delas, justamente a primeira da pilha, foi-lhe enviada por Mariana.

Em algum momento há meses atrás, uma terrível suspeita cruzou a imaginação de Paulo: a de que todas as mulheres que tenham sido pintadas por ele, sem excessão, não fossem exatamente como ele as havia concebido. Por uma razão que não cabe interpretar agora, tal pensamento trouxe ao nosso protagonista um incômodo indescritível, pelo menos não pelas palavras. Talvez algo em tons frios, melancólicos e sombrios nos trouxessem melhor uma idéia do que ele sentiu.

É por essa razão que Paulo, em sua sala, está, nesse momento, abrindo as primeiras cartas. Tratam-se de respostas para algumas perguntas que Paulo enviara a todas as mulheres que ele já havia pintado. Tais perguntas procuravam, apenas, conhecer os gostos, as preferências e as opiniões das versões reais de seus quadros.

Outra verdade deve ser contada: Paulo nunca conversou com nenhuma dessas mulheres. Ele apenas as viu, todas, em um ambiente de seu cotidiano. Cláudia, Carolina e Bárbara foram suas colegas de sala na escola; Ana Clara sua colega de cursinho; Rafaella, colega de sala em sua faculdade. E Mariana? Bom, essa ele apenas vira de relance, em um dia chuvoso, a esperar no ponto de ônibus. Nada mais. E ele conseguira, recentemente, a façanha de, depois de muito procurar e investigar, descobrir os endereços atuais de cada uma de suas musas, inclusive o de Mariana, cujo nome ele também desconhecia. Melhor não contar como ele realizou essa tarefa por não ser nossa intenção aqui lançar a Paulo qualquer mal julgamento, especialmente agora. Ele esperou até que a última resposta chegasse para, então, ler todas de uma só vez.

Paulo abre cuidadosamente a primeira carta. A resposta de Cláudia. Depois, trêmulo, a segunda, escrita por Carolina. Ele não fará nada além disso até às 13:30 p.m. Depois, às 13:31, Paulo finalmente se levanta, de posse de uma carta com o envelope não violado em mãos, dirige-se a janela de sua sala - que já estava aberta - e cuidadosamente sai por ela, primeiro se abaixando depois passando primeiro sua perna esquerda, depois a direita. Ele está de pé e apoiado, agora, apenas por um estreito degráu de cimento que fica logo abaixo de sua janela. Paulo olha para a cidade abaixo dele: poucos prédios mais altos e incontáveis pessoas, carros, motocicletas e ônibus a muitos metros abaixo dele.

"Isso sim daria uma bela pintura..." pensou.

E então, de acordo com o boletim oficial, após 3 horas de negociação frustrada, Paulo Quadros, de 31 anos, às 16:15 do dia 18/09/2008, saltou do décimo oitavo andar do prédio em que trabalhava. Ele fez isso após ler a última das cartas de sua mesa que, aliás, continuou em suas mãos durante o início da negociação com os bombeiros. Essa carta nunca fora encontrada pelos investigadores que cobriram o caso.

Nesse ponto, o leitor sente-se confuso. Teria Paulo se jogado apenas por ter descoberto que as mulheres pintadas não eram exatamente como ele as havia imaginado? Seria mesmo possível? De fato, a maioria das características imaginadas por Paulo, ou pelo menos as que ele considerava essenciais, não chegaram a realmente condizer com as respostas nas cartas. Isso nós já havíamos imaginado. Mas, ainda assim, não nos parece motivo suficiente. E não podemos nos esquecer que aquilo que causara a sua morte não fora, se voltarmos ao início desse relato, nenhuma das cartas mas sim algo que ele vira na mesa em que guardava seus materiais de pintura, logo pela manhã.

Na verdade, não há nenhuma boa explicação para um ato como esse aos nossos olhos. Portanto, nada do que se diga sobre Paulo poderá, algum dia, dar uma justificativa aceitável à sua decisão. Apenas um fato curioso: não foram encontradas nenhuma das pinturas mencionadas no apartamento de Paulo, muito menos os materiais necessários para produzí-las. Talvez Paulo as tenha destruído todas antes de sair de casa e, por isso, a sua demora. Talvez ele já pressentisse a monumental decepção que o aguardava e tomou as providências necessárias.

Mas cabe aqui uma outra interpretação do ocorrido, tendo qualquer um a liberdade de aceitá-la ou não: Paulo não era pintor. Paulo provavelmente nunca pintou um quadro sequer. Talvez toda a idéia de fazê-lo pintor tenha sido uma grande metáfora para a forma como nos relacionamos e como amamos. Desse modo, todos somos pintores. E todos já pintamos belíssimos quadros e acreditamos neles. E quando a beleza de um quadro se prova inadequada, a única resposta possível é suportar a decepção e pintar o quadro sequinte.

Pois bem. Paulo Quadros, às 6:05 da manhã do dia 18/09/2008, abriu seus olhos e, olhando para si mesmo, constatou algo terrível: sua tinta finalmente havia se esgotado.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Série Crônicas de uma cidade # 2

Antônio Martins abre os olhos e olha a sua volta, assustado. O relógio marca 6:14 a.m. Ele olha para suas mãos, para seu corpo por debaixo das cobertas e em seguida respira fundo. Ainda não acreditando no que parece ter descoberto, ele se levanta e corre ao banheiro. O espelho confirma sua suspeita. Antônio Martins acordou, as 6:14 a.m do dia 23/ 07/ 2009 e descobriu que estava velho. Ele, que sempre sonhou tanto enquanto jovem – como quando sonhou em ser astronauta, ou em caçar dragões ou em encontrar um tesouro – agora já não sonhava mais. E estava no alto de seus sessenta e dois anos, exatamente, pois hoje é também seu aniversário. Mas, ao contrário do que se poderia pensar, o nosso caro senhor Martins não está em clima de comemoração. Ele está assustado. É como se, em um dia, ele tivesse adormecido aos 22 anos, no máximo de sua beleza e saúde e, no dia seguinte, acordado com 40 anos a mais. Talvez ele tenha razão.

Antônio Martins irá acordar, pegar o seu jornal e sair de casa. Aposentado, um de seus passatempos favoritos é ler e fazer palavras cruzadas em uma das mais movimentadas praças de Belo Horizonte. Enquanto ele se levanta, lava o rosto, troca de roupa, come alguma coisa, pega seu jornal e sai de casa, podemos voltar 40 anos atrás e saber se Antônio Martins tem ou não razão para acordar assustado hoje.

Há 43 anos atrás, as 22:02 p.m do dia 18/ 04/ 1966, ele conheceu a garota de seus sonhos. Era uma jovem muito bonita, de pele branca, cabelos e olhos escuros, lábios carnudos e definidos, rosto muito bem desenhado. O coração de Antônio ficou acelerado assim que a viu e ela o olhou de volta e o fitou, por apenas 3 segundos. Não importa onde se encontraram nem o que disseram um para o outro nesse dia. O que importa é que aquela fora uma noite que seria lembrada com saudade por anos a fio.

O velho Antônio Martins está, inclusive, se lembrando dela, nesse exato momento. Ele está quase sorrindo, se você reparar bem. Voltamos a 2009 e são 6: 45 a.m. Ele está caminhando pelas ruas de seu bairro agora, indo em direção ao ponto de ônibus, com o jornal embrulhado, enquanto memórias desse dia começaram a brotar em seus pensamentos.

E não é por menos. Essa fora a noite em que ele conhecera Mariana Ribeiro. E ela fez brotar em Antônio pensamentos e sentimentos que ele jamais havia conhecido, apenas visto nas novelas e nos livros. Ela o fez, pela primeira e última vez em sua vida, sonhar com os finais felizes, com as paixões eternas e, por mais brega que isso possa parecer a você, que apenas acompanha tudo de fora, com o amor verdadeiro. E Antônio jamais deixaria esse sonho se esvair dele. No dia 06/ 05/ 1966, Mariana Ribeiro olhou em seus olhos e sorriu, após ouvir a pergunta: “Você quer namorar comigo?” Os dois se beijaram: o coração de Martins estava disparado. Depois disso, passados 3 anos de namoro, no dia que antecedia seu aniversário, 22/ 07/ 1969, ele tomaria a decisão que havia formulado em suas fantasias desde que Mariana o olhara de volta pela primeira vez. Ele faria um anúncio no jornal. Obviamente, não um anúncio qualquer. Antônio se lembra de, após colocado o tal anúncio – que só sairia no dia seguinte – ter voltado para casa e dormido como um bebê. Ele se lembra de ter deitado sua cabeça no travesseiro e possuir nada além de satisfação em seus pensamentos. Seu caminho estava claro, e com ele dormia a certeza de que tomara a decisão certa.

O nosso Antônio Martins do presente acordou hoje sentindo como se 40 anos tivessem se passado depois dessa noite. A noite em que ainda era jovem. Ele caminha lentamente, ainda se lembrando de tudo, em meio as pessoas que passam de lá para cá, de carros buzinando, de motoqueiros e de crianças indo para a escola e começa a enxergar o ponto de ônibus em que irá esperar. São exatamente 7: 18 a.m quando ele avista o ponto. Mas voltemos ao passado.

O jovem Antônio Martins abre os olhos. De supetão, as 6:14 a.m, ele se levanta, animado e nervoso. Ele sai de casa como uma bala, chegando a casa de Mariana Ribeiro exatamente às 7: 18 a.m. Ela o abraça, o beija, o deseja feliz aniversário e, finalmente, lhe pergunta o que ele fazia ali tão cedo. Ele, animado, pede que ela abra o jornal. Ela começa a abri-lo, às 7: 20 a.m. Ele pede que ela vá à sessão dos anunciantes. Ela o faz, sem entender. Mariana começa a passar o olho na sessão até que um dos anúncios faz seu coração pular. Um deles diz:

“Mariana, você quer se casar comigo?”

Ela olha assustada para Antônio, que acompanhava a cena com muita expectativa. Como fizera 3 anos atrás, exatamente as 7:21 a.m, Mariana sorri e então o beija. Antônio é tomado por uma felicidade sem tamanho. Ela e ele se casariam dali a 1 ano.

E lá está, novamente, o velho Martins se lembrando exatamente dessa época, dos ocorridos de 40 anos atrás, enquanto começa a abrir seu jornal, já assentado em seu ponto de ônibus, as 7:20 a.m. Ao seu lado, se assenta um homem com o ar afobado, vestindo um terno, de barba feita, cabelos penteados, relógio e sapatos caros. Antônio não conhece esse homem, mas está a ponto de mudar a vida dele sem saber. Esse homem é João Braga. E João está prestes a ver algo fantástico, em 60 segundos.

Mas não podemos deixar o passado como está. Infelizmente, existe uma mágoa que o velho Antônio Martins – que está calmamente lendo o seu jornal enquanto corremos por essas linhas – guardou e da qual precisamos falar antes que ele veja algo chocante.

A mágoa? Em um momento, de repente, no virar de um minuto para o outro, o jovem Antônio deixou de acreditar em finais felizes, em paixões eternas e no amor. Todos seus sonhos de infância também se esvaíram, pois ele havia acabado de crescer. Não nos importa como. O que importa é que, passados 20 anos de casamento, Antônio descobriu que Mariana Ribeiro o traía regularmente, e por muito tempo, talvez até tempos anteriores ao casamento. Com quem? Se fosse com o melhor amigo de Antônio, ou com seu chefe, ou ainda com um desconhecido – ou quem sabe com todos eles – também não nos importaria. O que importa é que, a partir do dia 12/06/1990, o jovem Antônio Martins deixara de acreditar em seus contos de fada e, assim, deixara morrer sua juventude, exatamente na virada das 23: 45 hrs para às 23: 46, no segundo 43. Os milésimos também não nos importam.

O que veio depois disso, espero eu, dispensa comentários detalhados. Apenas um tolo aceitaria continuar em uma relação permeada de mentiras e de traições. Apenas um tolo fecharia seus olhos diante dos próprios sonhos destruídos, de seu tempo perdido, da esperança morta. O que veio depois da traição descoberta foram papéis. Papeis que carregariam as assinaturas de Antônio e Mariana, tornando oficial a separação.

Passados 18 anos, Antônio presenciou algo que, sem sua consciência, mudaria a vida dele e a de João Braga definitivamente. Devo lembrar que – no presente – os dois ainda estão congelados, ainda no virar do minuto das 7: 20 para as 7: 21 a.m, no ponto de ônibus. Acontece que Antônio vira um homem, com seus 27 anos no máximo, decidir, após mais de 3 horas de conversas com a polícia e com os bombeiros, se jogar do alto de um edifício de 18 andares, no dia 18/ 09/ 2008, as 16:15 p.m. Ele o fizera após tomar coragem para abrir um envelope que esteve em sua mão ao longo do episódio inteiro e ler a carta que lá estava dobrada.

Antônio, que viu tudo da calçada, concluiu que jamais desistiria como aquele homem, não importava o quanto sua vida havia dado errado. Ele, que agora vive sozinho em um apertado apartamento no centro da cidade, sem filhos, amigos ou pais, enviou uma carta à Mariana, que dizia:

“Mariana, eu queria perguntar uma coisa. Você sempre soube o que eu sentia por você. Mas você, por outro lado, não parecia sentir o mesmo, já que precisou me trair por tanto tempo. Eu nunca entendi por que nos casamos, se era para você sair com outra pessoa e me iludir. Eu me lembro que, depois do dia em que eu descobri a sua traição, você chorou – e chorou muito – me pedindo perdão, dizendo que aquilo fora um erro. E eu descobri que o errado ali era eu. Você esteve errando por...20 anos? Errando em me trair ou em estar casada comigo, afinal? A verdade, Mariana, é que eu ainda amo você. E jamais vou me esquecer do garoto cheio de esperanças, sonhos e crenças românticas que eu me tornei e continuei a ser por 20 anos. Eu me dei conta, recentemente, que você nunca me disse mesmo se aceitava se casar comigo. Apenas sorriu. Então essa é a minha pergunta: Mariana, agora que você já sabe como eu sou, conhece meus defeitos, minhas qualidades, você seria capaz – se pudéssemos voltar atrás no tempo, naquele dia em que você viu o meu anúncio – de se casar comigo e de ser fiel a mim, acreditando, como eu acreditava, que somos almas gêmeas? O que você me diria, Mariana, se nós dois pudéssemos voltar no tempo?”

A resposta nunca veio. E ele, desde então, começara a sentir a certeza que havia trilhado o caminho errado. Que toda a dedicação e tudo o que tinha realizado em 40 anos de existência fora uma grande perda de tempo. A desesperança nunca o atingira tão forte quanto hoje, ao acordar no dia 23/ 04/ 2009.

E ali, exatamente às 7:21 a.m desse mesmo dia, folheando o jornal, o velho Antônio encontrou algo que talvez estivesse direcionado a ele, talvez não. Algo que talvez não passasse de um golpe publicitário ou de um código de um desconhecido para outro. Isso não nos importa, como também não importa a Antônio agora. O que importa é que encontrar aquilo, folheando aquele jornal, o surpreendeu. Demorando seu olhar sob aquelas letras, ele sentiu as lagrimas vindo, enquanto ousava pensar que talvez não havia desperdiçado sua vida. Ele sentiu o jovem alegre e apaixonado que uma vez ele já fora nascendo novamente e aquecendo seu peito. Ele se sentiu forte o suficiente para voltar a acreditar em suas antigas fantasias, seus sonhos desvairados e seus faz-de-conta. Ele não se sentia mais um tolo pela primeira vez em muito tempo. E Antônio, com muita alegria havia, naquele momento, voltado a ser quem ele nunca devia ter deixado de ser: alguém que cultiva belas esperanças e sonhos de juventude.

João Braga olhava atentamente, enquanto Antônio Martins, emocionado, lia um grande e destacado “SIM” colocado bem no meio do caderno de anúncios.

Não nos importa saber se esse SIM fora colocado ali por Mariana ou não. Sonhos não precisam acontecer para serem sonhados. Não nos importa nem se Antônio está ou não acreditando em uma mentira de propósito. O que nos importa é que Antônio começou esse conto como um senhor e o terminou como um jovem. O que nos importa é saber que o jovem finalmente encontrou seu tesouro. E que ele agora está bem.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Série Crônicas de uma cidade # 1

João Braga acorda renovado. Hoje parece um recomeço cheio de possibilidades promissoras pra ele. O dia é 23/ 07/ 2009, e são 6:25 a.m, em Belo Horizonte. Ele se levanta e faz a barba que, cá entre nós, já estava ficando grande o suficiente para qualquer um notar o desleixo com o qual João havia se tratado nos últimos meses. Ele toma um banho frio, bem frio. É pra deixá-lo atento, ligado, bastante esperto. João espera muito do dia de hoje e nada pode dar errado. Ele coloca o seu melhor terno e, finalmente, sai de casa, precisamente às 6:56 a.m.

Enquanto João caminha até seu ponto de ônibus, aproveito pra contar a história dele, que definitivamente não começa com ele acordando no dia 23 de julho e muito menos no ano de 2009. É melhor que a história dele comece pelo dia 11/04/1989, às 16:11 p.m. E começa com seu coração batendo forte, muito forte, logo após ter ouvido "Deu positivo...tô grávida". Quem disse isso foi Sibele Moreira, que era sua namorada ha 2 meses. O caso deles é engraçado: diferentemente de outros casais, quem se aproximou e se insinuou primeiro fora Sibele. João resolveu ver no que aquilo ia dar e começaram um relacionamento. Depois da gravidez, os Moreira não deram escolha a João senão assumir a relação perante a Deus e aos homens, consagrando essa união por meio do sagrado matrimônio. E assim foi. Se casaram, no dia 08/10/1989. Mas voltemos ao presente.

João já chegou em seu ponto agora, que não tinha muita gente assentada, a não ser por um senhor de idade, lendo um jornal. São exatamente 7:21 a.m quando algo fantástico começa a acontecer, bem na frente de João. O senhor começa a cair em prantos, com o jornal aberto. João não consegue tirar os olhos daquela cena curiosíssima. Ele não sabe a razão do choro já que não consegue ver o rosto do senhor por detrás do jornal. João fita atentamente a cena quando o senhor, notando João, finalmente abaixa o jornal e, com uma expressão que esboçava uma felicidade jovial, lhe diz: "A vida sempre supreende a gente, né? A gente num pode é desistir, nunca. Nem um velho como eu...." João sente empatia imediata por aquele senhor e pelas palavras inexperadas. Ele vai responder quando nota que seu ônibus acabara de chegar. Ele precisa ir, e acaba não dizendo nada. Mas sua mente não abandona a cena: "O que aquele senhor poderia ter visto em um jornal que lhe trouxe tanta alegria? Será que ele descobriu ser o novo ganhador da loteria? Ou por terem descoberto a cura para alguma doença? Ou ficou muito aliviado com alguma notícia boa no jornal? Realmente, hoje em dia só se fala em tragédia nos jornais...."

Enquanto João pensa sobre o que viu e viaja de ônibus, voltemos à sua história. Sibele e João, tiveram sua filha, a pequena Anna Moreiro Braga, no dia 15/12/1989. Foi um grande dia na vida de João. De lá pra cá, todos os outros dias foram recheados de muito trabalho e de muitas reclamações, primeiro da mulher, chamando-o de relapso e, mais tarde, da filha, que havia aprendido a reclamar desde cedo com a mãe. João arrumara um emprego na agência de seu sogro, Eduardo Moreira. Eduardo, desde que conheceu nosso protagonista, sempre gostara dele. Eduardo, inclusive, por simpatia, insistia na presença de João nos jantares de família, pois queria se aproximar dele, tornar-se amigo. Quando a notícia da gravidez veio, ela soou como uma garantia aos ouvidos de Eduardo de que a amizade seria eterna. Tanto que ele tratou de dar um ótimo cargo a João, em sua agência de publicidade. João era um homem bem casado, com uma belíssima filha, um sogro simpático e um ótimo emprego. Voltemos ao presente dele, já que ele acaba de chegar na mesma agência que acabamos de citar, a de seu sogro Moreira.

João observa o grande sagão decorado em mármore daquele edifício. Fazia tempos que ele não visitava o lugar e olhá-lo agora o fazia parecer mais bonito do que ele jamais se lembrava. Ele pega o elevador, até o oitavo andar, e entra em seu tão conhecido ambiente de trabalho. Alguns de seus colegas notam que ele chegou e começam a cochichar. João começa a se sentir ansioso com a situação e seu coração começa a bater mais rápido. São exatamente 8:03 a.m quando João percebe que sua antiga mesa fora ocupada por alguém. Um outro funcionário, do qual ele não se lembra de jamais ter conhecido. Seu coração, agora aos pulos, tenta se acalmar enquanto ele pede à secretária de Eduardo Moreira um horário rápido para uma breve conversa. João se assenta no sofá da sala de seu chefe, e tenta se acalmar, enquanto seu relógio de pulso acaba de marcar 08:30 a.m. Ele tenta se convencer de que não está tudo perdido.

Enquanto João espera para falar com seu chefe, voltemos ao seu passado, que já se aproxima de seu presente. João vivia ouvindo de sua esposa que ele não lhe dava atenção, não lhe dava carinho, não prestava atenção a sua filha. Ele tentava mudar, mas a quantidade de trabalho era enorme e o chefe, apesar de adorá-lo, muito exigente e rigoroso. Tudo se manteve assim até o dia 02/04/2009, em que sua mulher, aos gritos, exigia o divórcio e saía de casa com malas feitas, levando Anna consigo. João se deprimiu. Passou os 3 meses seguintes lidando com o choque, com a tristeza e com a culpa pela situação em que estava. Ele nunca imaginara que tudo acabaria em divórcio. Sua depressão foi tamanha que João não ia mais ao trabalho: olhar para Eduardo apenas lhe apertava mais o coração. Mas, passados 3 meses, João, finalmente, no dia de hoje, resolvera recomeçar sua vida, esperando que Eduardo, que sempre lhe foi tão generoso, daria seu emprego de volta. Mas João só ficaria tranquilo depois de conversar com Eduardo e reconquistar sua antiga posição.

A atendente avisa a João que tem permissão para entrar. João entra na sala do chefe, tendo o cuidado de fechar a porta atrás dele. Por um momento, aliás, por exatamente 5 segundos, João e Eduardo se entreolham, como que surpresos um com a presença do outro. O coração de João está disparado. Ele toma ar para começar a conversa, quando é interrompido: "Você veio buscar as suas coisas? Eu separei tudo aqui pra você, e guardei na minha sala." João então sente seu mundo desabando, novamente. Ele havia perdido o emprego e nem sabia disso. Ele devia ter esperado por isso. Aliás, suspeita até que uma carta sobre o assunto lhe fora enviada, mas ele estava deprimido demais pra se importar com qualquer correspondência. Ele então resolve esconder o fato vergonhoso de ter se aprontado daquela forma por nada. Envergonhado, ele pega a caixa das mãos de seu ex-chefe e ex-sogro e se vai, sem conseguir dizer uma palavra sequer.

No caminho, passa na lanchonete da empresa, e compra um bolinho de chocolate com um recheio delicioso de trufa, que ele sempre comia após o almoço. Seria o último daqueles que ele comeria. São exatamente 8: 43 a.m quando João fita sua tão amada sobremesa, envolta em um saquinho de plástico, que sempre fazia um barulho agradável aos ouvidos ao ser aberto. Estava longe do horário de almoçar mas aquilo serviria como um ritual de despedida.

Exatamente as 8: 47 a.m, quando João olhava para o bolinho em suas mãos, após ter saído finalmente do edifício em que trabalhara por tanto tempo e dado 8 passos na calçada, sua vida mudou completamente. Ele fora roubado. Um trombadinha passou, correndo muito rápido, viu o bolinho nas mãos do distraído João e não pensou duas vezes em tomá-lo de suas mãos. A destreza do rapaz foi tanta que João precisou de exatos 3 segundos pra se dar conta de que seu bolinho fora tirado dele e se virar para olhar quem tinha sido. O menino, que já estava embalado, corria rápido e logo sairia da vista de João. Nesse momento, nosso protagosnista foi tomado por uma fúria colossal, algo que tomou seu corpo completamente, alterou todos os seus sentidos, mudou tudo. Algo que João nunca havia sentido estava emergindo bem ali, gritando pra sair. Ele dispara atrás do garoto. Pessoas são empurradas e jogadas longe quando João, que não sente dificuldade nenhuma em tirá-las do seu caminho, passa enfurecido. O garoto olha para trás e se assusta: o dono o estava perseguindo para reaver o doce roubado. O menino aumenta seu rítmo, embora já estivesse cansado de correr. João, por outro lado, sentia como se estivesse assentado na beira de uma piscina de clube, e que poderia correr por dias se fosse necessário. Para ajudar na corrida, ele se livrou de sua gravata e jogou sua pasta, cheia de documentos, no chão.

O garoto, tentando evitar que a corrida continuasse, resolve entrar para uma favela próxima, exatamente as 9: 25 a.m, que não era a que ele morava, mas que sem dúvidas seria o bastante para assustar seu perseguidor e fazê-lo dar meia volta. O garoto não poderia estar mais enganado. Os morros da favela o cansaram mais e João tinha menos obstáculos para perseguí-lo agora que não estava em uma avenida movimentada. O garoto está apavorado: ele entrou em um território que não conhece e um homem maluco, com nada além de ódio no rosto, o seguia incansávelmente, não importasse qual devio ele tomasse, qual manobra evasiva ele adotasse. O homem agia como se conhecesse aquela favela melhor do que ele ou como se um radar estivesse grudado em suas costas. Por fim, o garoto deixa cair o bolinho e continua a corrida, as 9: 45 a.m.

João encontra seu bolinho no chão, ainda protegido pelo plástico. Ele para imediatamente. Se aproxima e cai de joelhos olhando o bolinho enquanto recupera seu fôlego. Todo o cansaço agora se faz notar. Seus músculos estão queimando, sua cabeça está tonta, e seu coração, disparado. E foi nesse momento que João começou a chorar, e chorar muito. Alguém que visse a cena veria um homem de terno, completamente suado, com seus 40 anos, ajoelhado de frente para um bolo de chocolate, no chão, aos prantos, no meio de uma favela. Mas veria que João não chora de tristeza, nem de desespero. João chora de alegria, uma forte e sincera alegria. Ele entendeu finalmente qual havia sido o caminho que trilhara até aquele dia, e entendeu também que ele fora completamente transformado naquele momento. Pela primeira vez em sua existência, João havia lutado com todas as forças contra um dos vários golpes inesperados da vida. Ele aceitou namorar Sibele por parecer o mais fácil e certo a fazer; aceitou casar-se pelo mesmo motivo e aceitou o emprego na agência pelo mesmo motivo. Aceitara tristemente o pedido de divórcio, sem saber como protestar ou lutar contra a decisão de uma mulher com o temperamento tão forte como Sibele. Aceitara, inclusive, perder o emprego sem lutar por ele, considerando ser uma causa perdida. João, pela primeira vez na vida, não se sentiu uma causa perdida. Ele descobriu que podia lutar até o final para conseguir o que quisesse, mesmo indo contra todas as possibilidades. Ele entendeu as palavras do senhor no ponto de ônibus. Ele jamais desistiria outra vez, a partir daquele dia. E é assim que acaba uma história de João. Uma história de fracassos e de mágoas. Mas também é assim, exatamente às 9: 47 a.m, do dia 23/07/2009, que outra história, cheia de decisões arriscadas, de luta, de conflitos, de decepções, mas também das mais grandiosas alegrias, começa. E é aqui que abandonamos João. Ele já não precisa mais de nós.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Filosofia de viagem


Olá!



Acho que é mais do que comprovada a existência e, inclusive, a recorrência de um certo fenômeno: a filosofia de viagem.

Tratam-se daqueles momentos em que você, seja dentro de um carro ou de um ônibus, começa a pensar na vida, nas questões essenciais, nos problemas, nas soluções e, quem sabe, uma epifania possa surgir.

O relato de hoje não é, apesar da introdução, uma epifania advinda de uma filosofia de viagem. É, pelo contrário, o relato de uma linha de raciocínio que foi jogada em uma direção completamente difente, dadas as circunstâncias.

São 23: 30 p.m.

Um rapaz dirige seu carro calmamente pensando sobre a vida. Ele está no começo do percursso. Sua mente vai divagando entre trabalhos a serem entregues, coisas a serem ditas a amigos, problemas a serem resolvidos, quando - a uma hora dessas - um homem de idade avançada lhe pede dinheiro no sinal. Ele tem um aspecto fantasmagórico.


Isso lhe faz pensar sobre aquelas pessoas que colocam saquinhos - que sempre têm mensagens religiosas impressas - com poucas balas em cima dos retrovisores dos carros nos sinais vermelhos. Primeira dúvida: quem imprimiu essas mensagens para eles? Segunda dúvida: Se eles precisam ganhar a vida nos sinais, devem ter pouquíssimas condições econômicas. Será que eles, portanto, fizeram algum tipo de acordo com seja-lá-quem-for que escreveu aquela mensagem religiosa? Terceira dúvida: No caso de um acordo, os lucros são divididos? Quarta dúvida: É realmente possível viver vendendo balas no sinal? Quinta dúvida: Quem são essas pessoas e como elas gastam o dinheiro que arrecadam? Serão pais de família, por exemplo? Mas essa divagação, como vocês verão, se perderá pelo que vem a seguir.


De repente, algo interrompe os pensamentos do rapaz. No sinal seguinte, uma mulher muito bonita, de cabelos loiros, pele lisa, lábios, olhos e rosto muito bem feitos, parando o carro ao lado do dele, começa a olhá-lo fixamente. Ela, no entanto, não olha como uma mulher interessada em alguém. Não sorri, não mexe no cabelo, porem não desvia o olhar. O rapaz começa a pensar que ela viu algo de muito errado nele, talvez uma sujeira em seu rosto. Mas ela não o olha como se algo de errado tivesse sido encontrado: ela apenas o olha, fixamente, talvez como apenas um fantasma.

Pelo vidro do banco de trás do carro dessa mulher, o rapaz nota que um taxi também está parado no sinal. Seus dois passageiros, um careca e uma mulher de cabelos longos, muito pretos, discutem um com o outro, vociferando, quase se agredindo.


Dúvidas: O que aquela mulher tanto olhava? Será que, ao olhar o rapaz, ela se lembrou, quem sabe, de um ex namorado? Parece não ter tido um final feliz, esse relacionamento. Vai ver, terminou em assassinato. Resta saber de quem: seria a mulher uma assassina ou realmente um fantasma? Outra dúvida: qual seria o motivo da discussão do casal do taxi? Pra brigarem desse jeito dentro de um taxi, a coisa devia mesmo estar séria. Será que a mulher cometeu adultério? Será que eles retornavam de um jantar frustrado e cheios de gafes terríveis com as famílias de ambos? Será que a briga continuaria ao descerem do taxi? Até onde chegar essa discussão tão agressiva?


O rapaz segue. Já está na metade do percusso. Ele se assusta: um carro, mais amassado que uma lata de refrigerante depois de ser pisoteada, bloqueia duas pistas de seu caminho. Algumas pessoas estão em volta do acidente e, para sua surpresa, ele consegue ver nitidamente que três delas conversam aos risos.


Dúvida: Como alguém pode rir em uma situação dessas? Estariam essas pessoas realmente envolvidas com o acidente? Não pareciam, pelos trajes e pelo horário, transeuntes curiosos. Seriam essas pessoas paretes do acidentado? Houve alguma vítima fatal? Seriam eles, portanto, inimigos do recém falecido no acidente? A ponto de rirem enquanto fitam a destruição do veículo de seu inimigo?


O rapaz continua. Já está próximo de casa. Sua atenção é tomada por um homem fazendo cooper na frente de um cemitério.


Dúvida: Por que alguém, às 23: 55, faria exercícios fora de casa e, pior, passando na frente de um cemitério? Seria esse homem, na verdade, o fantasma do falecido do acidente de outrora que, com pressa para ir ao outro mundo, o fazia correndo? Seria ele um fantasmagórigo amigo da loira macabra que, de tanto olhar, parecia nem piscar? Seriam os dois um sinal de mau presságio?


O rapaz segue, agora temendo se juntar aos outros dois. Já está quase em casa. Novamente, algo toma sua atenção: uma mulher de idade avançada, encobrida por roupas pretas - possivelmente um cobertor - esperava, sozinha, no ponto de ônibus. Ela foi vista de relance mas, dadas as circustâncias, fez a mente do rapaz novamente degavar.


Dúvida: Quem abriu as portas do mundo dos mortos?


Finalmente, o rapaz chega ao seu destino. Chega e se pergunta: "Será que algum dia vou descobrir a resposta de alguma das perguntas que me fiz hoje? Possivelmente eu tenha que levar essas dúvidas para o túmulo."


Muito apropriado. Dessa forma, quem sabe, você, rapaz, poderá perguntar pessoalmente a cada uma das almas penadas - a loira, o corredor e a senhora (e talvez o primeiro senhor) - o que resolveram fazer tão tarde (ou talvez tão cedo, no horário dos mortos) no meio da rua.

Existe a remota possibilidade de não serem almas penadas. Mas ela é prontamente afastada pelo rapaz, que parece se divertir imaginando que realmente pôde, por uma noite, ver gente morta.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Onde encontrar a felicidade.


Olá a todos.



Eu tive um leve bloqueio em relação ao blog ultimamente. Mas eu tinha uma boa idéia sobre o que poderia ser o meu próximo post. Idéia que já me tem visitado a muito tempo: falar sobre a felicidade.


_ Como assim?


A minha própria. Eu me considero, de verdade, uma pessoa muito satisfeita com a vida que leva. Eu sou alguém com uma ótima casa, família cuja presença me alegra, alguns ótimos amigos. Encontrei algo que eu realmente gosto de fazer e tive a oportunidade de fazê-lo assim que pude. Tive a mais que privilegiada sorte de nascer com a condição de pagar por uma terapia psicanalítica, que tem me levado a pensar sobre tudo o que eu faço, penso e fantasio faz mais de 4 anos.

E se tem algo que eu aprendi - depois desses 4 anos - é que você pode ser feliz e se sentir leve com a sua própria existência. Basta aceitar algumas coisas, tais como: somos todos falhos, não temos o controle de quase nada que nos ocorre, nunca teremos tudo o que desejamos, nada dura pra sempre, alguns problemas simplesmente não poder ser solucionados como queremos e as coisas nunca sairão como nós planejamos, com algumas raras e chatíssimas excessões. O último ítem, por sí só, deixa a vida inteira com um ar imprevisível que a torna amarga e doce, ao mesmo tempo. O belo não existe sem o feio, como a própria felicidade não pode existir sem a tristeza.

O que muda, radicalmente, o rumo desse post. Se a felicidade não pode existir sem a tristeza, então este é, essencialmente, um texto sobre a tristeza. Sim, é verdade. O caso é: se alguém realmente aceita os termos acima, ele pode viver em uma condição - muito recomendável - de auto-absolvição. Nesse estado, uma pessoa consegue se aceitar apesar de suas feiúras, seus defeitos, seus pecados. Não que ela não procure melhorar, não me entenda mal, mas o peso da culpa e da decepção por não sermos exatamente o que gostaríamos ser - um ideal sempre estratosférico - deixa de pesar tanto. Se é possível ser feliz, pelo menos que eu possa imaginar no momento, o caminho a ser seguido é: auto-aceitação e amor próprio.

Batido, brega, piegas. Chame como quiser. Mas me parece muito verdadeiro. O que também me parece verdadeiro é que tal caminho oferece alguns efeitos colaterais NO MÍNIMO engraçados. Ser alguém que não tem problemas consigo é ser alguém que não quer criar problemas com os outros.

E adivinhem? Isso é extremamente incômodo ao resto do mundo. Veja você: o mundo é dos que se importam com a vida alheia, dos que têm um problema com o outro, dos que sabem jogar, dos que dão o primeiro tiro, dos que fazem calúnia temendo ser caluniados. Eu poderia me extender dizendo que: o mundo pertence aos que julgam temendo o julgamento, aos que caçoam temendo que seus defeitos lhes sejam expostos, aos que atacam por serem covardes.

Se você estiver em paz consigo mesmo, saiba que essa paz parecerá qualquer coisa aos olhos dos que têm problemas, menos o que ela realmente é. Eles dirão que você é falso, convencido, estranho, suspeito, egoísta, imoral, perigoso e/ou louco. Eles precisarão atacá-lo, perturbar a sua paz e colocar você em dúvidas se devia continuar a corresponder ao seu tão incômodo amor próprio. Afinal, como a doutrina cristã - pra não dizer no próprio exemplo do nosso excelentíssimo Senhor Jesus Cristo - nos ensina, não parece correto buscar felicidade na vida terrena, já que seguramente existe uma pós-vida repleta de promissoras alegrias. Mas prometida apenas aos sofredores. Portanto - e só deus sabe ao certo - talvez eu devesse agradecer a qualquer um que me tirasse o bom humor. A cada sorriso de alegria arrancado por um mal julgamento, uma fofoca infundada, uma injustiça e uma falta de respeito, subimos mais um degrau na escada que leva ao céu. Se o mundo pertence aos sofredores e aos problemáticos, que empreitada desvairada é essa de realmente ser feliz?

Mas persiste um paradoxo. Se existem a tristeza e o sofrimento no mundo - e ambos podem ser tão profundos - então eles necessariamente reafirmam que também existem - no mesmo mundo - a alegria e a felicidade em igual profundidade. Não é verdade que não é possível existir tristeza sem também haver felicidade? Tal como o amargo, que de tão amargo, só faz adoçar o que já é doce?

Isso faz do mundo, inesperadamente, um lugar em que uma grande alegria possa de fato ser alcançada. Eis aí a grande glória.


Esse acabou se tornando um post feliz, afinal.

domingo, 7 de junho de 2009

A relação com o silêncio


Olá a todos.



Eu tive uma grande revelação a menos de duas horas do atual momento em que escrevo. E aqui vai: não posso escrever sobre o que eu quero. Sobre o que eu REALMENTE gostaria. Algumas coisas me prendem, como a minha profissão e as minhas relações em geral. Vejam vocês o paradoxo: para escrever o que gostaria, eu precisaria de um pseudônimo. Dessa forma, não existiria mal algum. Tanto que, por consequência, ninguém se incomodaria em ler. Seria um estranho falando sobre outros estranhos. E isso não teria propósito algum. Seria como um divã de psicanalista que, por acaso, eu já tenho disponível a um preço extremamente salgado.

Uma saída seria escrever em metáforas. Outro beco sem saída: não me entenderiam ou, PIOR ainda, alguém poderia realmente entender. E aí sim a coisa ficaria feia.

Imaginem, por exemplo, se eu pudesse comentar tudo o que vejo, sinto e penso sobre o meu trabalho. Algumas coisas, as boas, eu posso dizer. Mas não terá a menor graça, já aviso. Por exemplo, meus colegas de trabalho, os outros professores. Nenhum deles me deixou uma impressão nem levemente ruim. Todos me parecem competentes no que fazem em sala de aula e, fora dela, todos são realmente inteligêntes, bons de conversa, simpáticos. Chato, não?

Agora, por exemplo, imaginem se eu comentasse sobre as fofocas das vidas dos alunos? Não aquelas fúteis, mas as realmente cabeludas? Isso sim interessaria, não é? Bom, não posso nem nunca tal assunto estará em pauta. Talvez uma metáfora sobre isso aqui e ali, mas nada além disso. E, acreditem, alunos são uma fonte incrível de muitas coisas: afeto, risadas, encheção de saco, carinho, frustração e até raiva.

Imaginem também se eu me pusesse a comentar sobre as últimas notícias chocantes sobre a minha família, por exemplo? Sobre barracos, desentendimentos, tragédias - enfim - tudo o que todos querem saber? Também inadequado e espero nem precisar me estender sobre as razões disso.
E o que essa imagem tem a ver com o post? Ah....bom, até onde eu saiba, caveiras não são de falar muito. Só aquele inimigo do He-Man.

Outro bom assunto: fofocas sobre meus círculos de amizades. Quem fez o que com quem, quando, como, onde. Ou algum post desaforado, com algumas leves insatisfações sobre alguns deles. Eu poderia escrever sobre isso? Mas é claro que não, imaginem a confusão. Em pouquíssimo tempo, eu num teria nem amigos mais pra comentar aqui, mesmo falando sobre poucos - o que assustaria o resto.

Essas e outras frustrações, reclamações, fococas, sentimentos e pensamentos em geral precisam ficar aos ouvidos apenas da minha analista. É uma pena. Eu adoraria dividí-las com o mundo. Mas não se pode dizer o que quer sem arcar com as consequências indesejadas, não é?

Portanto, aqui termina meu longuíssimo post sobre - nada mais, nada menos - o ato de não dizer nada.

domingo, 31 de maio de 2009

A relação com a Moral


Olá a todos.



Eu desejo fazer um post menos carregado de emoção do que o anterior. Escrever assim, carregado demais por um sentimento só, pode trazer más consequências.

- O que? Descobriram de quem você falava? Deu confusão?


Claro que não. A má consequência é a minha impressão de que eu poderia ter dado um final melhor ao post. Mas, ao mesmo tempo, saiu como saiu. Me expressei como deu na telha e não quero voltar atrás.

Me resta falar de outro tema que, no exato momento, é tema de análise e motivo de desconforto: a moral de cada um.

Eu, por exemplo, não sou nenhum santo: já faltei com a verdade, já enganei, já omiti, já prestei falso testemunho. Mas, acreditem ou não, meus atos seguem uma lógica, que vai de acordo com a minha moral: a de não causar sofrimentos desnecessários.



Eu tenho pra mim que aquilo que chamamos de "verdade" é uma ótima forma de causar uma dor rápida e duradoura a alguém. Principalmente se esse alguém, por acaso, gostar de quem somos, do que fazemos, da amizade que oferecemos.

Talvez as pessoas fiquem assustadas demais em imaginar que não sabem nem da metade do que se fala sobre elas por aí. Em pensar que não possuem controle nem ciência do que se pensa e se sente sobre elas. Você já notou o quanto fala sobre os outros, em uma turma de amigos? E o quanto, muitas vezes, o assunto se volta justamente para a pessoa que acaba de sair da mesa? E você pensa mesmo que não falam as mesmas coisas sobre você? Uma roupa mal escolhida, uma frase mal interpretada, um gesto de má educação, uns quilinhos a mais. Enfim, fofoca. Você precisa mesmo saber de tudo que falam sobre você? Melhor não. Por que você, afinal, nunca vai saber. E realmente não precisa. As pessoas que dizem o que dizem não deixarão de gostar de você pelos quilinhos a mais, pela roupa mal escolhida ou por qualquer outro motivo - não sendo o motivo algo realmente grave. Portanto, saber disso causaria sofrimento, incômodo e, por outro lado, não traria bem algum, excluíndo-se a chance de ser algo passível de mudança.

O ponto é: não precisamos ser sinceros 100% do tempo com ninguém, muito menos precisamos que o sejam conosco. Isso não atrapalha a convivência entre as pessoas e, aliás, a facilita.


A moral da qual falo, portanto, não será essa pequena moral dos igualmente pequenos egos que apenas querem saber do que se fala por aí sobre eles. O meu objeto é a mentira da sua forma mais violênta: a mentira entre amigos. A hipocrisia que ganha território não levada através da simples lábia ou do desejo de salvar ouvidos sensíveis de pequenas e incômodas verdades, mas aquela que segue através da confiança sincera que lhe é entregue. Falo do tipo de moral que, de fato, não se importa com o outro. Falo de alguém que mente e conta versões diferentes do que se passa cada amigo, pra simplesmente evitar que seus erros sejam descobertos.(1) Falo de amigos que invejam outros amigos, que secretamente lhe desejam mal, expõem seus defeitos a desconhecidos, pra se sentirem melhor.(2) Defeitos que os deixamos ver, por serem nossos amigos, por querermos lhes dar nossa confiança.

Falo do pior tipo de pessoa: da pessoa verdadeiramente imoral. Daquela que não segue, nem ao menos, uma moral interna e coerente com qualquer princício senão o do interesse próprio e a vontade infantil de se sentir sempre bem, a qualquer custo. Falo do amigo que julga mal seus amigos e confidentes. Falo daquele que espalha a discórdia.(3) Daquele que, enfim, não é amigo. Mas a quem entregamos de bom coração, em algum momento, a nossa sincera confiança. A quem fizemos o maior elogio sincero que uma pessoa pode fazer a outra: chamar de amigo.


Mas que, infelizmente, é hipócrita até consigo mesmo, a ponto de acreditar piamente que o é.


Uma dica: eu, nesse texto impróprio, me referi a 3 amigos diferentes. Se você, que me acompanhou até aqui, acha que sabe quem algum deles seja, provavelmente você acertou.

Se você leu e por acaso sentiu que eu falava de você, mas ficou na dúvida, pode ter certeza: era mesmo de você.

Outra dica: agora ficou na dúvida, né?

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A relação narcísica


Olá a todos!


O post de hoje, extremamente impróprio do ponto de vista ético, terá alguns personagens importantes que serão, de imediato, apresentados:


- Maria, um codenome para uma amiga com quem tenho ótimas conversas, quando não estamos brigando.

- Sr. sem limites 1 - jovem sem limites, muito inconveniente e ex aluno.

- Sr. sem limites 2 - outro jovem sem limites, muito agressivo e também ex aluno.

- Paulo, codenome para um rapaz muito tímido e quieto mas que nunca, que eu tenha visto ou tenha qualquer notícia, tenha feito mal a ninguém. Dizem as más línguas que ele é bacana até com as moscas.

- Eu, que não vou fazer o papél ridículo de me apresentar de novo.

- Sigmund Freud - conhecido por muitos como "pai da psicanálise", criador da teoria do narcisismo pela qual orientarei todo o presente post.


Outro dia, eu estava a conversar com Maria quando ela me disse algo que ficou na minha cabeça. De acordo com seu relato Maria, aparentemente, só consegue - ou pelo menos encontra enorme facilidade para - fazer amizades com pessoas excluídas. Talvez eu, na minha prepotência habitual, tenha esquecido de notar que, portanto, estou INCLUÍDO na classificação de EXCLUÍDO, visto que somos amigos. Esqueça isso, não é o nosso ponto.

Maria contou que nota pessoas que obviamente terão problemas em se ajustar e em serem aceitas socialmente e se sente irrevogavelmente afeiçoada a elas. "Essa é das minhas" - pensa Maria, ao ver uma criatura potencialmente excluída. Ela se aproxima e....dito e feito. Uma nova e bela amizade surge.

Não pude deixar de entender Maria. Eu mesmo, nos tempos de escola, sentia simpatia pelos infelizes dos excluídos. Não que eu construísse profunda amizade, andasse com eles no recreio ou os visse nos finais de semana. Não chegava a tanto. Mas meu sangue fervia quando, por exemplo, um playboy mimado queria se exibir pros outros mauricinhos por meio da ridicularização de alguém visivelmente indefeso. Mais de uma vez, na minha vida escolar, eu já estive a ponto de entrar em brigas com mauricinhos por causa disso ou, pior, acabei entrando. Minha sorte é que os mauricinhos, orgulhosos, nunca contam pra diretora quando apanham. Meu azar é que, como todo garoto mimado e sem limites que se preze, eles são covardes por natureza e, portanto, convocavam suas gangues de "amigos" para tentar me dar o troco mais tarde. Eu tenho saudade da escola.

Eis que, a pouquíssimo tempo atrás, questão de horas, algo que me recordou os meus tempos de menino e a minha conversa com Maria aconteceu bem na minha frente. E aconteceu quando eu estava a conversar com Paulo, que além da apresentação acima, ainda merece mais elogios: é muito simpático comigo, sempre faz questão de se levantar e de me cumprimentar quando eu chego no mesmo ambiente em que ele está e, ainda, é um estudante muito esforçado. Eu admiro isso.

Pois bem, eu conversava com Paulo quando os Srs. Sem limites 1 & 2 apareceram, atrapalharam nossa conversa, querendo roubar a atenção e, pro meu horror, o sr. sem limites 2 ainda espirrou limão bem nos olhos de Paulo. Paulo, acreditem ou não, estava justamente estendendo a mão para cumprimentar Sr Sem limites 2 quando teve que levá-la a seu olho direito, que ardia bastante, para tentar cobrí-lo.

Em questão de milésimos, meu sangue ferveu. Ferveu como não fervia desde os tempos de colégio. Ferveu como não fervia até os segundos antes de uma briga muito feia começar, pra toda escola ver. Pela primeira vez, em 3 anos, eu senti o impulso legítimo de dar uma bela surra em alguém que já tenha me chamado de "Professor".

Explico minha reação, tanto recente como de outrora, quanto a tentar defender vítimas de mauricinhos: trata-se de uma relação de identificação imediata, tal qual Maria descreveu. Essa relação pode, também, ser denominada de "relação narcísica". Como sempre, "Freud explica". De modo simples, pode-se aplicar esse conceito a relações em que nasça um sentimento de familiaridade e reconhecimento de uma pessoa para outra. Isso acontece pois um dos lados se vê espelhado no segundo, o que gera forte empatia.

Caso eu não tenha sido suficientemente claro, o que eu quis dizer foi que sinto afeição por Paulo - e a escolha desse nome não foi por acaso, espero que isso tenha sido bem fácil de sacar - pelo simples motivo de ver a minha própria imagem projetada sobre ele. Paulo se sente mal recebido, solitário, caçoado sem motivo e muito retraído. Quem nunca se sentiu assim? Eu, antes de ter mínimas condições de revidar era, também, vítima de playboys as vezes com uma diferença absurda de idade, algo na casa de 4 anos. Culpa, talvez, do meu inconveniente crescimento descontrolado, que me fazia parecer anos à frente, mas que não me dava qualquer semblante intimidador. Era por esse motivo que eu, quando mais novo, assim que tive chance, passei a caçar mauricinhos que, como sempre, procuravam suas vítimas nos anos inferiores aos deles. Talvez, seja por esse motivo que Maria também se afeiçoe aos excluídos. E, talvez, seja Paulo o próximo a defender outros que passam pelo que ele passou, em um futuro ideal.

Arrependimentos?

Nenhum. Talvez de não ter socado tantos Maurícios quanto eu deveria, nos tempos de escola. Talvez dos momentos, que nunca deixam de voltar a nossa vida, em que fraquejamos e vemos a coragem se esvaindo pelas mãos.

Mais algum?

E de não ter feito dois Srs Sem limites chorarem de vergonha, quando tive a chance. De ter dado uma bronca que, olhando agora, foi mínima pelo que eles mereciam. De não ter pedido desculpas ao Paulo por tal fato ter acontecido mesmo na minha presença já que eu, pelo menos em TESE, deveria ser uma figura de autoridade. E de não ter reagido com mais veemência quando os Srs Sem limites ficaram, ao contrário de envergonhados, mas INDIGNADOS por ouvirem uma repreensão pelo que fizeram.


Eu, inocentemente, prefiro viver de futuro, por hoje. Prefiro imaginar que os maurícios do meu passado, que fugiram da minha alçada, tenham tomado suas merecidas lições. Também prefiro imaginar que esses caros senhores aprenderão, com o tempo, a descobrir seus limites. E, ainda, gostaria de imaginar que Paulo, ainda um dia, virará a mesa do jogo, e levantará a voz contra projetos de maurício que tentam sacanear alguém em sua frente.

É longa e ingrata essa estrada de esperanças, caminho dos inocentes.

Mas - por hoje - é por ela que caminho, até o alvorecer.